Escapa-me o ócio, mesmo quando ao sábado à tarde sou deparado com duas opções: ligar a televisão ou tirar uma “ciesta”. Do sofá, não tenho forças para levantar. Minha cabeça que durante a semana foi bombardeada por informações vazias, hoje, mais do que nunca, se recusa a pensar.
No tédio me pergunto: para onde foram aquelas tardes onde escrevi os primeiros poemas? Cadê a motivação para desbravar o desconhecido, seja dentro de mim, ou nas explicações físicas para a as leis do cosmos?
As respostas não vêm. Como poderiam vir? Nem mesmo me reconheço, desapareci. Estou hipnotizado pela rotina dos dias, perdido em alguma esquina. Mas respiro! Gordo e viscoso o sangue ainda corre em minhas veias!
Ah! E tenho amigos, muitos amigos. Só no Orkut são mais de 200, se contar as pessoas que conheço fora da Internet, já perdi as contas. Só estou sozinho porque na minha agenda apertada não consigo cultivar afeto e cumplicidade.
Não, não estou triste. Também já faz algum tempo que não me sinto alegre. Mesmo sem partes em metal, sou quase robô. A alma que tanto a igreja lutou para conquistar, aos poucos se vai com a minha humanidade. No meio do concreto armado, da fumaça e permeado pela mais avançada tecnologia, renasço.
Julia abre os olhos em uma manhã fria de maio. No quarto bagunçado a luz entra pelas frestas da cortina entreaberta. A vontade era de ficar ali imóvel, no máximo se esconder da luz e do som que começava a ecoar de uma obra nas redondezas. Entretanto o sono já se foi. Alguns minutos se passam e com pensamentos negativos ela foge para o chuveiro.
Uma conversa no dia anterior a havia deixado arrasada. Roberta, a sua chefe imediata, apontou falhas no seu trabalho. Você não revisou o material antes da publicação? Os dados dos gráficos estão incorretos. Julia, sem reação, timidamente pediu desculpas e voltou aos afazeres. Havia confiado nos dados contabilizados por Renata, mas assumiu completamente a culpa.
Depois do ocorrido, a cada minuto sentia mais revolta. Não por ter confiado nos dados fornecidos pela colega ou por ter falhado na revisão. Estava com raiva de si porque ficou inerte perante a chefe. Durante horas imaginou inúmeras justificativas e a forma eloqüente com que poderia ter se defendido. Mas no fim, se convenceu de que o problema era com ela.
Com a água caindo sobre rosto queria esquecer o que havia acontecido. Precisava sentir confiança para começar um novo dia. Pegou o sabonete e começou a passar pelo corpo sensível ao contraste de temperatura. Foram quarenta minutos entre sabonete, xampu e óleo hidratante; até que ao olhar as mãos enrugadas decidiu enfrentar o frio e sair.
Enjoada de pão francês e café com leite foi para o trabalho sem desjejum. Chegando lá sentiu fome e mandou vir da padaria do seu Joaquim um pão de queijo e um croissant com recheio de goiaba. Comeu bebendo chá e voltou ao computador. Leu os e-mails, as notícias do dia e se sentiu melhor. Percebeu que o dia já havia começado e tudo estava aparentemente bem.
O caso Isabela, esgotado pela mídia, mas que ainda é assunto de informes urgentes e matérias especiais, me lembra a canção “Gallows Pole”.
Crimes hediondos de qualquer gênero incitam na sociedade um sentimento natural de retaliação. Quando o atentado é contra a integridade física e ou emocional de crianças a situação é agravada. Assim, para evitar julgamentos emocionais precipitados foram criadas as leis e o poder judiciário. Este, tem como responsabilidade apurar os fatos e julgar de forma imparcial os processos, sem a interferência de interesses particulares ou do clamor popular.
Com toda exposição gerada pela mídia e promovida pelas autoridades, questiono se o poder público conseguirá lidar com a pressão. Pois, a sociedade requer uma resposta rápida e os que proferiram acusações nos meios de comunicação temem as conseqüências de suas palavras caso a condenação não aconteça.
Gostaria de saber se existe mais de um desfecho para esta história ou se as cartas já estão marcadas. Infelizmente a resposta é incerta e o sentimento que fica é o da música cantada pelo Led Zeppelin: Muitos vêm para assistir ao enforcamento, ninguém para salvar o enforcado e mesmo com a chegada da verdade que pode salva-lo, o algoz executa com satisfação a sentença.
No espaço que não existia aparece um buraco
Mas a fenda aberta não posso fechar
Distante está a peça, engrenagem que me faz andar
No espaço que não existia aparece um suspiro
Mas o gemido ecoado não posso abafar
Distante está o beijo, toque que me faz calar
No espaço que não existia eu desapareço
Meus pensamentos soltos já não posso controlar
Distante está a musa, ser que me faz cantar
Maio com ela
No ar gelado da cidade elétrica, caminho alegre.
Invisível e determinado atravesso o concreto e as pessoas.
Chegando à esquina da saudade, abro a caixa que carrego e me desfaço
de sentimentos cansados.
Como encontrou a chave? Grita um homem no meio da multidão.
Ouvem-se apenas largos passos em direção a ela, meu sorriso responde.
Minha Poesia
Sou amigo da solidão
Primo da ilusão
E pai da poesia
Minha filha não é bonita
Não disperta nem arrebata
É apenas poesia
Canção do Exílio
Minha terra tem coqueiros,
Onde canta o ACM.
As aves que aqui rapinam,
Não rapinam como lá.
Nosso céu tem uma estrela,
Nossas casas têm mais grades,
Nossos morros têm mais vida,
Nossa vida é futebol.
Musa da Saudade
Por que sem asas?
Vejo nas formas um ser celestial.
Irmã de Cupido, talvez Psique.
Oh Deus, ela põe meu coração em brasas.
Mas a sinto tão longe
Suave como uma brisa,
Amena e funesta.
Seria mais fácil ser um monge.
Não agüento a angustia
De não ter ao meu lado
Essa flor que não conhecia,
Não temia, não existia.
Amizade
De mesma matéria
Produto das mesmas dores
Qual irmãos crescemos
Envolvidos por amores
Trocamos energia e idéias
Descobrimos as diferenças
Queríamos ser amigos sinceros
Fomos impedidos pelas crenças
Sobram as palavras
E falta o conteúdo
De “oi” em “oi” seguimos
Juntos em tudo
Com Vontade
Estou com vontade
de estar
de sentir
tua face
teu peito
Mergulhar nos teus olhos
sem medo de me afogar
Gritar ao mundo
correr na rua
sentar no chão
deitar na grama
a te contemplar
A que vida boa sem reveses
pois você a me esperar
com vontade de estar
de sentir…