Eu sou o problema

Julia abre os olhos em uma manhã fria de maio. No quarto bagunçado a luz entra pelas frestas da cortina entreaberta. A vontade era de ficar ali imóvel, no máximo se esconder da luz e do som que começava a ecoar de uma obra nas redondezas. Entretanto o sono já se foi. Alguns minutos se passam e com pensamentos negativos ela foge para o chuveiro.

Uma conversa no dia anterior a havia deixado arrasada. Roberta, a sua chefe imediata, apontou falhas no seu trabalho. Você não revisou o material antes da publicação? Os dados dos gráficos estão incorretos. Julia, sem reação, timidamente pediu desculpas e voltou aos afazeres. Havia confiado nos dados contabilizados por Renata, mas assumiu completamente a culpa.

Depois do ocorrido, a cada minuto sentia mais revolta. Não por ter confiado nos dados fornecidos pela colega ou por ter falhado na revisão. Estava com raiva de si porque ficou inerte perante a chefe. Durante horas imaginou inúmeras justificativas e a forma eloqüente com que poderia ter se defendido. Mas no fim, se convenceu de que o problema era com ela.

Com a água caindo sobre rosto queria esquecer o que havia acontecido. Precisava sentir confiança para começar um novo dia. Pegou o sabonete e começou a passar pelo corpo sensível ao contraste de temperatura. Foram quarenta minutos entre sabonete, xampu e óleo hidratante; até que ao olhar as mãos enrugadas decidiu enfrentar o frio e sair.

Enjoada de pão francês e café com leite foi para o trabalho sem desjejum. Chegando lá sentiu fome e mandou vir da padaria do seu Joaquim um pão de queijo e um croissant com recheio de goiaba. Comeu bebendo chá e voltou ao computador. Leu os e-mails, as notícias do dia e se sentiu melhor. Percebeu que o dia já havia começado e tudo estava aparentemente bem.

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